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Como podemos medir as emissões de CO2 no setor de resíduos de forma eficaz?

Marcello José Abbud destaca que, enquanto o debate climático nacional concentra atenção no desmatamento e na agropecuária, os resíduos urbanos seguem gerando metano e CO2 de forma silenciosa, em aterros que operam sem controle de biogás e em lixões que ainda persistem em centenas de municípios brasileiros.

O metano liberado pela decomposição anaeróbica de matéria orgânica em aterros tem potencial de aquecimento global cerca de 28 vezes superior ao do CO2 em um horizonte de 100 anos, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Quando convertido em CO2 equivalente para fins de contabilidade climática, o setor de resíduos passa a representar uma fatia relevante do inventário nacional de emissões, com implicações diretas para os compromissos brasileiros no âmbito do Acordo de Paris.

Para gestores públicos e empresas que precisam entender como quantificar esse impacto e, mais importante, como reduzi-lo de forma estruturada, o caminho começa pelo domínio de alguns conceitos e ferramentas que já estão disponíveis. Continue lendo para entender como funciona essa contabilidade e quais são as estratégias com maior potencial de resultado.

Como as emissões de CO2 dos resíduos são calculadas na prática?

A metodologia mais utilizada internacionalmente para quantificar as emissões do setor de resíduos é a desenvolvida pelo IPCC, adotada também pelo sistema brasileiro de inventários de emissões coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O modelo parte de dados sobre a composição gravimétrica dos resíduos dispostos, o tempo de degradação de cada fração orgânica e as condições operacionais do local de destinação. O resultado é uma estimativa da quantidade de metano gerado, que pode ser convertida em CO2 equivalente para fins comparativos.

Como observa Marcello José Abbud, um dos problemas centrais no Brasil é a qualidade dos dados de entrada para esses cálculos. Municípios que não realizam caracterização gravimétrica dos seus resíduos, que não registram com precisão os volumes destinados ou que operam sem sistemas de pesagem nas portarias dos aterros produzem estimativas com margem de erro elevada. 

Quais são as estratégias mais eficazes para reduzir emissões no setor de resíduos?

Como considera Marcello José Abbud, a hierarquia de resíduos, estabelecida tanto pela legislação brasileira quanto pelas diretrizes internacionais, oferece um roteiro claro para a redução de emissões: quanto menos matéria orgânica chega ao aterro, menor é a geração de metano. Isso coloca a compostagem e o tratamento biológico de resíduos orgânicos no centro de qualquer estratégia climática séria para o setor. 

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Municípios que implantaram programas de compostagem em escala, mesmo que em nível domiciliar ou comunitário, registraram reduções mensuráveis na quantidade de orgânicos dispostos em aterro. A captura e o aproveitamento do biogás gerado em aterros sanitários é outra frente com enorme potencial no Brasil. 

O mercado de carbono como indutor de boas práticas no setor de resíduos

O avanço do mercado regulado de carbono no Brasil, em discussão no âmbito do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), abre uma nova dimensão para a gestão de resíduos. Projetos que comprovam a redução de emissões em aterros, a implantação de compostagem em larga escala ou a substituição de disposição inadequada por tratamento controlado podem gerar créditos de carbono com valor de mercado, criando um mecanismo de financiamento que não depende exclusivamente de recursos públicos.

De acordo com Marcello José Abbud, essa possibilidade ainda é pouco explorada por municípios brasileiros, em parte por desconhecimento e em parte pela complexidade dos processos de certificação. A estruturação de projetos de carbono no setor de resíduos exige metodologia validada, monitoramento contínuo e auditoria independente, o que demanda capacidade técnica que municípios de menor porte raramente têm internamente. Parcerias com empresas especializadas e consórcios intermunicipais surgem, aqui, como caminhos viáveis para democratizar o acesso a esse instrumento.

A contabilidade climática dos resíduos como elemento central da agenda ambiental municipal

O setor de resíduos sólidos urbanos está, de forma crescente, sendo incorporado às discussões sobre metas climáticas locais e nacionais. Municípios que avançarem na quantificação e na redução de suas emissões nesse setor estarão melhor posicionados para acessar financiamentos climáticos, cumprir exigências regulatórias futuras e demonstrar resultados concretos à população.

Como resume Marcello José Abbud, a gestão de resíduos deixou de ser uma questão exclusivamente sanitária ou logística. Ela é, cada vez mais, uma variável climática com peso real nos inventários de emissões e nos compromissos assumidos pelo Brasil perante a comunidade internacional. Municípios e empresas que tratarem esse tema com a seriedade técnica que ele exige sairão na frente, tanto na eficiência operacional quanto no acesso a recursos e oportunidades que o novo cenário climático global está criando.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

 

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