Tiago Schietti pontua que a questão não é mais se os cemitérios devem adotar práticas ambientalmente responsáveis, mas como e com que velocidade essa transformação vai acontecer diante das pressões regulatórias, urbanas e sociais que já se fazem sentir em diferentes regiões do país. O debate ganhou nova urgência à medida que cidades brasileiras enfrentam saturação de espaços de sepultamento, crescimento da consciência ambiental entre as famílias e exigências cada vez mais rigorosas dos órgãos de licenciamento.
O setor funerário e cemiterial brasileiro convive historicamente com uma contradição: é responsável por gerir espaços de memória profundamente simbólicos para a sociedade, mas opera, em muitos casos, com práticas que geram passivos ambientais concretos. Solo contaminado, uso intensivo de agroquímicos na manutenção de gramados, descarte inadequado de resíduos e ocupação desordenada do subsolo são problemas reais que precisam de resposta técnica e gestão qualificada, não apenas boa intenção declarada.
Continue lendo para descobrir quais soluções já estão em prática, quais barreiras ainda impedem a transição e qual é a função da liderança setorial nesse processo.
Gestão ambiental cemiterial: o que a legislação exige e onde o Brasil ainda patina?
A Resolução CONAMA 335/2003, complementada pela 368/2006, estabelece os parâmetros técnicos mínimos para o licenciamento ambiental de cemitérios no Brasil. As normas abrangem requisitos sobre profundidade do lençol freático, permeabilidade do solo, sistema de drenagem, manejo de efluentes líquidos e impermeabilização de sepulturas. O objetivo central é prevenir a contaminação das águas subterrâneas pelo necrochorume, substância resultante da decomposição dos corpos que pode comprometer mananciais e ecossistemas locais caso não haja controle adequado.
Na prática, como explica Tiago Schietti, empresário do setor cemiterial e funerário, a aplicação dessas normas é desigual em todo o território nacional. Empreendimentos privados de grande porte, em geral, apresentam maior conformidade, contando com equipes técnicas especializadas e processos de monitoramento periódico. Já os cemitérios municipais, especialmente em cidades de pequeno e médio porte, enfrentam dificuldades históricas de adequação, seja por limitações orçamentárias, seja pela ausência de um corpo técnico capacitado para conduzir os processos de regularização ambiental.

Cemitérios verdes existem no Brasil ou ainda são só promessa?
O modelo de cemitério ecológico, já consolidado em países como Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos, propõe uma reconfiguração completa da lógica de sepultamento convencional. Em vez de caixões com acabamentos químicos, monumentos de concreto e manutenção intensiva com pesticidas, os cemitérios verdes apostam em materiais biodegradáveis, vegetação nativa, integração paisagística com o entorno e, em alguns casos, funcionamento simultâneo como reserva ambiental ou área de uso comunitário.
No Brasil, experiências nesse sentido ainda são pontuais, mas deixaram de ser apenas teóricas. Algumas iniciativas em São Paulo, no Sul e em Minas Gerais já incorporam práticas parciais de gestão verde, como substituição de herbicidas por manejo mecânico, captação e reuso de água da chuva, arborização com espécies do bioma regional e implantação de jardins de memória como alternativa às tradicionais lápides. Sob essa perspectiva, como observa Tiago Schietti, o Brasil tem condições climáticas e de biodiversidade excepcionais para desenvolver modelos cemiteriais integrados ao ambiente natural, o que tornaria esses espaços genuinamente únicos no mundo.
Por que a sustentabilidade precisa ser estratégia, não marketing?
Existe uma armadilha frequente no debate sobre sustentabilidade em qualquer setor, e o funerário não é exceção: a tendência de tratar práticas ambientais como elemento de comunicação institucional antes de consolidá-las como rotina operacional real. Cemitérios que adotam esse caminho acabam gerando um distanciamento entre o discurso e a prática que, cedo ou tarde, se torna perceptível para famílias, órgãos reguladores e para a própria comunidade do entorno.
Como ressalta o empresário do setor cemiterial e funerário, Tiago Schietti, a sustentabilidade só gera valor real quando está integrada ao planejamento estratégico da operação, com metas mensuráveis, indicadores de desempenho ambiental e governança interna que garantam continuidade independentemente de mudanças de gestão. Isso significa monitoramento periódico da qualidade do solo e das águas, gestão ativa dos resíduos sólidos, controle do uso de insumos químicos e planejamento de capacidade que leve em conta o ciclo de vida de cada área do cemitério.
Sustentabilidade cemiterial como herança para as próximas gerações
Cuidar de um cemitério com responsabilidade ambiental é, em essência, um ato de coerência entre o passado e o futuro. Com isso, Tiago Schietti resume que esses espaços existem para preservar memórias, mas a forma como são geridos hoje vai determinar que tipo de território as próximas gerações vão herdar.
Um cemitério que contamina o solo, compromete o lençol freático ou ocupa de forma desordenada o espaço urbano não está apenas criando um problema ambiental. Está contrariando o próprio sentido de lugar de memória e respeito que justifica sua existência. Essa consciência precisa estar presente tanto nas decisões dos gestores privados quanto nas políticas públicas municipais que regulam esses espaços.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



